Prepare-se para a prova de Língua Portuguesa e Literatura no Enem 2025
Estudos em dia? Veja se está afiado para a prova!
Desenvolvido pela professora de linguagens Kátia Giesen, do Gama Pré-Vest
Nesse excerto de uma crônica, a presença da função metalinguística está evidenciada
Grande Edgar
Já deve ter acontecido com você.
— Não está se lembrando de mim?
Você não está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas as fichas armazenadas na memória o rosto dele e o nome correspondente, e não encontra. [...]
— Não me diga. Você é o… o…
“Não me diga”, no caso, quer dizer “Me diga, me diga”. Você conta com a piedade dele e sabe que cedo ou tarde ele se identificará, para acabar com sua agonia. Ou você pode dizer algo como:
— Desculpe, deve ser a velhice, mas…
Este também é um apelo à piedade. Significa “não tortura um pobre desmemoriado, diga logo quem você é!”. É uma maneira simpática de você dizer que não tem a menor ideia de quem ele é, mas que isso não se deve a insignificância dele e sim a uma deficiência de neurônios sua.
VERÍSSIMO, L. F. As Mentiras Que os Homens Contam. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.
A função metalinguística se define pelo foco na própria linguagem (código). No caso do texto apresentado, isso se expressa na reflexão feita a respeito da diferença entre o que se fala e aquilo que se quer dizer nas entrelinhas, entendido normalmente pelo contexto.
Portanto, a correta é alternativa D. As demais alternativas sugerem, na verdade, outras funções da linguagem (a - emotiva; b - referencial; c - poética; e e - fática).
Esse tipo de questão (H19) tem a vantagem de ser facilmente identificada na prova: a expressão “função da linguagem” ou uma das funções possíveis costuma ser apresentada no enunciado. Para isso, o Enem pode tanto apresentar a função e solicitar quais marcas do texto a comprovam como pedir que se identifique a função e colocar as diferentes opções nas alternativas. Importante: nem sempre elas serão apresentadas diretamente por seus nomes, também podem ser identificadas por sua definição. Por isso, é importante saber bem: o nome de cada função, qual seu foco (elemento comunicativo) e quais suas principais marcas linguísticas.
No texto, a articulação entre os recursos verbais e não verbais atende à finalidade de
Disponível em: https://g1.globo.com/. Acesso em: 18 maio 2025.
Questão bastante clássica de recursos verbais e não verbais. Em exemplos dessa habilidade (H21), é necessário triangular três pontos: texto, imagem e mudança de hábitos. Aqui, apresenta um pouco mais de desafio porque uma leitura menos atenta pode dar a entender que a associação é entre sinais de trânsito e a necessidade de respeitá-los. No entanto, a verdadeira associação precisa ser feita entre a imagem de várias pessoas, com diferentes condições de vida, segurando sinais de trânsito que são representativos de quem eles são (não de regras de trânsito), porque é isso que dialoga diretamente com a frase “trânsito é feito de gente. E a gente merece respeito”. Esse conjunto apela diretamente ao leitor para uma atitude consciente no trânsito. O segredo aqui é realmente considerar a relação entre verbal e visual.
O texto abaixo apresenta características do gênero textual a que pertence na medida em que
Emicida liberou, nas plataformas de streaming, seu novo álbum de estúdio intitulado “AmarElo”. Composto por onze faixas inéditas e cheio de participações, ele surpreende pelo estilo mais leve, pelo menos no ritmo. Tanto pelo histórico do rapper, como o momento cultural e político, que o artista também se envolve bastante, muitos esperavam algo mais forte. No entanto, essa mudança, nem de longe, foi algo ruim. [...]
Em “AmarElo”, o rapper apresenta um trabalho diferente do que havia feito anteriormente, trazendo ritmos mais calmos, um pouco de samba, mas sem perder sua essência crítica e imponente, com versos muito bem escritos, que são sua principal característica. Em tempos de ódio, Emicida consegue passar sua mensagem com toda a consciência social que possui utilizando de ritmos mais leves.
Disponível em: https://br.nacaodamusica.com/. Acesso em: 5 set. 2025. Adaptado.
Essa questão pede a identificação de um gênero textual, por isso exige duas etapas do candidato: primeiro, o reconhecimento de diferentes gêneros textuais nas alternativas (a - resenha; b- notícia; c - resumo; d - sinopse; e - resumo). Nem sempre elas encaixam perfeitamente em algum gênero, mas é possível aproximar. Em segundo lugar, é necessário reconhecer o gênero do texto lido. Nesse caso, por ser uma passagem que fala sobre um objeto cultural e conter uma avaliação (positiva e negativa) do álbum, é uma resenha. Para tornar questões desse tipo mais fáceis, é importante conhecer bem os gêneros que circulam em nossa sociedade (notícia, reportagem, artigo de opinião, resumo, resenha, charge, verbete, divulgação científica, entre outros). Se aparecer na prova um gênero muito incomum, cabe sempre analisar perguntando-se: Quem escreve? Onde circula? Qual seu objetivo? Qual o assunto? Qual provável público-alvo?
Considerando o papel das tecnologias da informação e comunicação no desenvolvimento social, a situação exemplifica a
Adultização. Esta única palavra é o título de um vídeo de 50 minutos que em cinco dias alcançou quase 34 milhões de visualizações no YouTube, furou bolhas nas redes sociais e ampliou o debate sobre a segurança de crianças e adolescentes na internet.
Publicado pelo influenciador Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, o vídeo denuncia produtores de conteúdo que exploram crianças e adolescentes nas redes sociais, além de cobrar as plataformas que monetizam este tipo de vídeo.
O influenciador de 27 anos realiza um experimento: cria um perfil do zero e começa a curtir fotos de crianças em poses ou contextos sugestivos. O resultado que o influenciador apresenta é como o algoritmo do Instagram rapidamente se "condiciona" a entregar conteúdo sexualizado de crianças, replicando o comportamento de pedófilos e revelando como as redes sociais podem conectar redes de pedofilia.
Um dos casos denunciados é de Hytalo Santos. Com mais de 20 milhões de seguidores nas redes sociais, Santos mostrava, em seu canal, adolescentes que ele chamava de "turma do Hytalo" e "filhos" fazendo danças sensuais, além de outros contextos com conotações sexuais.
Nesta terça-feira (12/8), a Justiça da Paraíba determinou a suspensão dos perfis de Hytalo nas redes sociais, com interrupção da monetização. A medida também proíbe o influenciador de ter contato com menores de idade.
Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c9qynn5e0e9o. Acesso em: 13 ago. 2025.
Questões de tecnologia, como essa, exigem do candidato não apenas “interpretação”, mas associar o texto a uma série de conhecimentos prévios. Aqui, uma notícia sobre os acontecimentos envolvendo o influenciador Felca faz refletir sobre o papel das redes. Na prova, os temas tecnológicos podem ser explorados tanto por impactos positivos como negativos. Nesse caso, o enunciado ajuda, ao solicitar diretamente o “papel de desenvolvimento social”, já indicando a ideia de benefício. Como a notícia mostra a denúncia na rede social tendo um impacto positivo, isto é, a punição dos culpados e a visibilidade do assunto, o que se destaca é o papel das Tic’s de dar voz à população. A mesma notícia poderia ser explorada pelo viés do impacto negativo (a exploração de imagens de crianças) ou do funcionamento da linguagem das redes (problema de algoritmos e formação de bolhas), a depender da construção do enunciado. Então, é necessário compreender o que realmente foi solicitado e se manter antenado(a) nas discussões mais recentes.
Os textos I e II abordam a temática da obsolescência e têm em comum a
TEXTO I
Você vai ficar obsoleto
Vivemos numa época em que as coisas ficam obsoletas cada vez mais rápido. Produtos e serviços desaparecem substituídos por outros, como também indústrias inteiras, devoradas por formas mais eficientes de trabalho. O comportamento das pessoas também está mudando; hoje aceitamos a inovação muito mais rápido.
Você sabia que a eletricidade demorou 46 anos para ser adotada por pelos menos 25% da população norte-americana? Para o telefone foram necessários 35 anos, 31 para o rádio, 26 para a televisão, 16 para o computador, 13 para o celular e apenas 7 para a internet.
Dessa forma, tecnologia e empreendedorismo formam uma combinação explosiva que afeta os tradicionais setores econômicos, transformando modelos de negócios inteiros e acelerando o envelhecimento das coisas. Portanto, a chave para lidar com isso nos exige sair constantemente da zona de conforto. Deixar para trás o velho e abrir-se ao novo é despir-se do medo do desconhecido. É deixar-se dominar pelo entusiasmo, pela curiosidade e pela vontade de viver e fazer diferente.
SENGER, A. Disponível em: www.cloudcoaching.com.br. Acesso em: 20 nov. 2021 (adaptado).
TEXTO II
A rotina obsoleta
Ser do tempo da máquina de escrever não me assusta mais. Já é objeto de museu. De colecionador. Até seu sucessor, o computador de mesa, está com os dias contados. Tão mais prático o laptop! Mas também existe o tablet, e quem sabe o que logo mais.
É surpreendente a velocidade com que meu cotidiano se transforma. Objetos essenciais até um tempinho atrás desapareceram.
Inventa-se um dispositivo, todo mundo tem, e, dali a pouco, ele é trocado por outro, mais avançado. A velocidade da mudança supera as eras anteriores.
O próprio papel está perdendo a razão de ser. Documentos on-line são aceitos. Posso assinar um contrato por e-mail. Houve um tempo em que ter xerox de RG com firma reconhecida era um avanço. Hoje…
Quem faz xerox? Imagine, eu sou do tempo em que na escola se faziam apostilas em xerox! Hoje, a gente recebe on-line.
Parece estável? Vai sumir. A vida se torna obsoleta a cada segundo. Mas o novo vai surgir. Isso torna a vida fascinante. A realidade é deliciosamente instável.
CARRASCO, W. Disponível em: https://veja.abril.com.br. Acesso em: 20 nov. 2021.
A competência de análise de textos argumentativos assume, no Enem, formas variadas. A de comparação é uma das mais facilmente identificáveis. Nessa questão, o enunciado busca um elemento em comum (para além da temática). O que está em jogo, nesse tipo de pergunta, é perceber os pontos de vista defendidos por cada um dos textos. Portanto, é pertinente que o candidato identifique sempre o que cada texto defende em relação ao seu assunto central, para então compará-los. Nos trechos apresentados, a obsolescência, surpreendentemente, é trazida como uma realidade inegável, mas vista com bons olhos. O texto I a concebe como motriz de desenvolvimento e adaptação do ser humano (segundo e terceiro parágrafo); o texto II afirma diretamente que há nela uma realidade que é instável, mas “fascinante” (último parágrafo). Portanto, ambos são otimistas. Importa, nesses casos, perceber que os textos sempre vão se relacionar: concordam, discordam, se complementam, expandem um ao outro… É necessário ao candidato fazer essa ligação pontualmente.
Chacal é um dos representantes da geração poética de 1970. A produção literária dessa geração, considerada marginal e engajada, de que é representativo o poema apresentado, valoriza
Olho
tu pensas que me vê
mas eu é que te vejo
eu sou mais poderoso
que o incrível Hulk
mais incrível
que o poderoso chefão
porque eu sou
eu sou o olho
eu sou o olho
da televisão
CHACAL. Tudo (e mais um pouco): Poesia reunida (1971-2016). São Paulo: Editora 34, 2016.
Como indicado pelo enunciado, o poema de Chacal é exemplar da poesia marginal, movimento das décadas de 1970 e 1980, contextualizado na ditadura brasileira. Essa geração, ligada à contracultura e à liberdade de expressão, faz uso de linguagem coloquial, humor, ironia e referências da cultura pop para questionar valores e instituições.
No poema, o “olho da televisão” é uma metáfora para o poder midiático e a vigilância exercida sobre o sujeito moderno. A presença de expressões como “incrível Hulk” e “poderoso chefão” traz um tom de ironia e humor, evidenciando a mistura entre cultura de massa e discurso poético.
A alternativa A é a correta, pois reconhece o traço formal e temático característico dessa geração. Questões como essa exploram a habilidade H15 e exigem que o candidato relacione estilo, época e linguagem literária. Assim como nas artes, o Enem tende a privilegiar as escolas do século XX. Portanto, vanguardas e modernismo brasileiro e literatura contemporânea são centrais para o conhecimento do estudante.
Ao abordar essas vozes que ecoam desde a bisavó até a filha, o poema revela valores sociais e humanos que
Vozes-Mulheres
(Conceição Evaristo)
A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
[...]
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.
[...]
A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
O eco da vida-liberdade.
EVARISTO, C. Poemas de recordação e outros movimentos. 2008.
O poema “Vozes-Mulheres”, de Conceição Evaristo, exemplifica bem a escrevivência, termo criado pela autora para designar a escrita que parte da experiência de vida, sobretudo de pessoas negras. A escolha por fazer uma progressão temporal (da bisavó à filha) constrói uma memória coletiva. Considerando a voz como metáfora que, estrofe a estrofe, é cada vez mais potente e ouvida, percebe-se a ideia de resistência à opressão e ao racismo. Assim, o poema traduz valores de resistência, ancestralidade e emancipação, o que confirma a alternativa B.
Trata-se de uma questão voltada ao reconhecimento de valores sociais, culturais e humanos trabalhados em um texto literário (H17). Para resolvê-la, é essencial perceber o diálogo entre a poética individual e a herança coletiva que ela expressa. São privilegiadas, nesses casos, obras voltadas a grupos minoritários e aquelas que questionem os preconceitos (machismo, racismo, de gênero etc.) da nossa sociedade.
Ao descrever o Ateneu e as atitudes de seu diretor, o narrador revela um olhar sobre a inserção social do colégio demarcado pela:
Um dia, meu pai tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa, molhando-me de lágrimas os cabelos e eu parti.
Duas vezes fora visitar o Ateneu antes da minha instalação.
Ateneu era o grande colégio da época. Afamado por um sistema de nutrido reclame, mantido por um diretor que de tempos a tempos reformava o estabelecimento, pintando-o jeitosamente de novidade, como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos de última remessa; o Ateneu desde muito tinha consolidado crédito na preferência dos pais, sem levar em conta a simpatia da meninada, a cercar de aclamações o bombo vistoso dos anúncios.
O Dr. Aristarco Argolo de Ramos, da conhecida família do Visconde de Ramos, do Norte, enchia o império com o seu renome de pedagogo. Eram boletins de propaganda pelas províncias, conferências em diversos pontos da cidade, a pedidos, à substância, atochando a imprensa dos lugarejos, caixões, sobretudo, de livros elementares, fabricados às pressas com o ofegante e esbaforido concurso de professores prudentemente anônimos, caixões e mais caixões de volumes cartonados em Leipzig, inundando as escolas públicas de toda a parte com a sua invasão de capas azuis, róseas, amarelas, em que o nome de Aristarco, inteiro e sonoro, oferecia-se ao pasmo venerador dos esfaimados de alfabeto dos confins da pátria. Os lugares que não procuravam eram um belo dia surpreendidos pela enchente, gratuita, espontânea, irresistível! E não havia senão aceitar a farinha daquela marca para o pão do espírito.
POMPÉIA, R. O Ateneu. São Paulo: Scipione, 2005.
No fragmento de O Ateneu, obra do realismo brasileiro, Raul Pompéia faz uma crítica à mercantilização da educação e à vaidade intelectual do diretor Aristarco, que transforma o colégio em uma marca de prestígio e propaganda. A crítica é percebida por meio da descrição, recurso comum a essa escola literária, sempre somada ao caráter irônico e analítico. Isso se nota sobretudo no último parágrafo, quando se afirma que o diretor está “atochando” a imprensa com seus livros, sugere-se que ele explora trabalho de professores (“ fabricados às pressas com o ofegante e esbaforido concurso de professores prudentemente anônimos”) e preocupa-se mais com a aparência (capas dos livros) do que com a qualidade e utilidade de seu conteúdo. Assim, o narrador evidencia uma sociedade regida pelas aparências e pelo interesse econômico, típico da crítica social do realismo/naturalismo à sociedade burguesa de sua época.
Questões como essa exigem do candidato reconhecer a visão crítica e o contexto histórico-social de uma narrativa literária. É importante acionar, nesses casos, conhecimentos prévios das escolas literárias, conhecimentos específicos dos períodos históricos e as habilidades de leitura do próprio texto artístico.
Situada no contexto da modernização da cidade de São Paulo na década de 1920, a narrativa utiliza recursos expressivos inovadores, como
Gaetaninho
Ali na Rua do Oriente a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou de carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Um sonho. [...]
— Traga a bola! Gaetaninho saiu correndo.
Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou.
No bonde vinha o pai do Gaetaninho. A gurizada assustada espalhou a notícia na noite.
— Sabe o Gaetaninho?
— Que é que tem?
— Amassou o bonde!
A vizinhança limpou com benzina suas roupas domingueiras.
Às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da Rua do Oriente e Gaetaninho não ia na boleia de nenhum dos carros do acompanhamento. Ia no da frente dentro de um caixão fechado com flores pobres por cima. Vestia a roupa marinheira, tinha as ligas, mas não levava a palhetinha.
Quem na boleia de um dos carros do cortejo mirim exibia soberbo terno vermelho que feria a vista da gente era o Beppino.
MACHADO, A. A. Brás, Bexiga e Barra Funda: notícias de São Paulo. Belo Horizonte; Rio de Janeiro: Vila Rica, 1994.
O foco dessa questão, como evidencia o enunciado, são os recursos expressivos do texto. Portanto, é necessário que o candidato analise como esse texto é construído. No excerto narrativo, a linguagem é coloquial, o ritmo ágil, as frases curtas e o tom mais informal, características da modernidade literária que buscava aproximar a escrita do modo de falar do povo. Embora carregue uma crítica à desigualdade e à violência da vida urbana, a tragédia de Gaetaninho é narrada com aparente simplicidade.
A análise dos procedimentos estéticos de uma obra se vincula à habilidade H16, que exige identificar os recursos do texto literário de diferentes escolas e movimentos literários. Essas costumam ser questões mais complicadas na prova, pois exigem sensibilidade ao texto artístico e leitura atenta. Um conhecimento básico para o aluno, nesse caso, são os elementos constitutivos dos gêneros literários: lírico, épico e dramático. A partir deles, torna-se mais simples saber onde procurar o estilo de cada texto.
A relação entre o trecho apresentado e o movimento literário em que a obra de que ele faz parte se dá pela
A primeira que se pôs a lavar foi a Leandra, por alcunha a Machona, portuguesa feroz, berradora, pulsos cabeludos e grossos, anca de animal do campo. Tinha duas filhas, uma casada e separada do marido. [...]
Junto dela pôs-se a trabalhar a Leocádia, mulher de um ferreiro chamado Bruno, portuguesa pequena e socada, de carnes duras, com uma fama terrível de leviana entre suas vizinhas.
Seguia-se a Paula, uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam todos pelas virtudes de que só ela dispunha para benzer erisipelas e cortar febres por meio de rezas e feitiçarias. Era extremamente feia, grossa, triste, com olhos desvairados, dentes cortados à navalha, formando ponta, como dentes de cão, cabelos lisos, escorridos e ainda retintos apesar da idade. Chamavam-lhe “Bruxa”.
Depois seguiam-se a Marciana e mais a sua filha Florinda. A primeira, mulata antiga, muito séria e asseada em exagero: a sua casa estava sempre úmida das consecutivas lavagens. [...]. A filha tinha quinze anos, a pele de um moreno quente, beiços sensuais, bonitos dentes, olhos luxuriosos. Toda ela estava a pedir homem, mas sustentava ainda a sua virgindade e não cedia, nem à mão de Deus Padre, aos rogos de João Romão, que a desejava apanhar a troco de pequenas concessões na medida e no peso das compras que Florinda fazia diariamente à venda.
AZEVEDO, A. O cortiço. São Paulo: Klick Editora, 1997.
O fragmento de O Cortiço exemplifica muito bem o naturalismo, movimento literário que aplica ao texto artístico os princípios do determinismo e do cientificismo. As personagens são descritas detalhadamente, com foco em aspectos físicos, biológicos e sociais, o que reforça a ideia de que o comportamento humano é produto do meio, da raça e do instinto. A caracterização minuciosa e quase zoológica das lavadeiras revela o olhar do narrador como se fosse o de um cientista observando tipos sociais, evidenciando o enfoque determinista e a animalização. Em questões como essa, o conhecimento das características de cada escola literária é fundamental. Mais frequentes nos últimos anos vêm sendo o Romantismo, o Realismo e o Modernismo. O candidato deve ficar atento, porém, a não se limitar ao senso comum. As obras por vezes escapam às características superficiais, então é preciso confirmar no texto da questão se um dado recurso é empregado ou não.